RVK010 – O Homem de Barba

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Picuité, estado do Pará, Brasil.

– Tem certeza que é por aqui? – Vinicius Harpe perguntou após esfregar o lenço na testa suada. Já era um homem de 62 anos com cabelos grisalhos e cavanhaque da mesma cor. Não tinha bigode. Vestia calça de linho e um blazer claro. Transpirava muito, resultado da união da caminhada pelas ruas movimentadas da cidade com o mormaço. Ele se perguntava se esse era o preço da elegância.

– Sim, o endereço do anúncio indicava essa rua. – Julius Hawk apontou para uma localidade a frente. Ele já era um homem na casa dos 50 anos. Tinha cabelos escuros e lisos e um bigode grosso. Vestia uma calça clara com bolsos e camiseta preta. Apesar da barriga protuberante, apesar de quando mais jovem ter pertencido às forças armadas e ser praticante de esportes.

No entanto, enfrentava melhor a situação que seu velho amigo. – Olhe achamos!- apontou para a pequena loja que dizia:

A CASA DO EXPLORADOR – TURISMO DE AVENTURA

Entraram. Era uma loja pequena. Duas mesas com folhetos explicando os passeios disponíveis. Nas paredes propagandas dos diversos pontos turísticos da região. Defronte à entrada, uma pequena porta levava para outra dependência que não podia ser vista.

Dessa porta então saiu um homem de pouco mais de 1,80m, de cabelos negros cortados baixo e barba escura. Uma cicatriz do lado esquerdo de seu rosto era parcialmente escondida pela barba. Ele trazia um pequeno copo de café em uma das mãos e um caderno na outra. Ao ver os dois possíveis clientes perguntou sorridente:

– Posso ajuda-los? Desejam agendar um de nossos serviços?

Os homens se olharam e Vinicius respondeu:

– Sim. Gostaríamos de saber se poderíamos contar com o seu auxílio.

– Sentem-se então. Meu nome é Artur, em que posso lhes ser útil? Uma trilha pela mata ? Um passeio de helicóptero? Temos bons preços.

– Precisamos de algo mais específico, senhor Artur. – Tomou a palavra Vinicius.

– Diga então. – Artur se acomodou, e tomou um gole longo do café.

– Há cerca de uma semana atrás um grupo de fiscais de ministério do trabalho foi fazer uma vistora em fazendas localizadas em Patos, conhece essa cidade?

Com olhar intrigado Artur respondeu:

– Sim, não é perto daqui, mas conheço.

Vinicius continuou:

– Eles foram apurar denúncias de trabalho escravo. As denúncias foram motivadas por algumas pessoas que afirmaram que seus parentes foram trabalhar na região e não conseguem voltar por causa de dívidas adquiridas com os patrões.

– Pelo teor das cartas, eles suspeitaram até de casos de violência e ameaça. – Completou Julius.

– É, tem muitas pessoas que exploram as outras. Mas não é um problema só aqui, mas em todo esse nosso país. Mas estou intrigado em saber onde minha pequena empresa de turismo se encaixa nessa história.

– Acontece que os fiscais não voltaram. As autoridades locais acharam o carro deles no fundo uma ribanceira. Eram cinco pessoas, dois corpos já foram encontrados. Suspeita-se que os demais estejam mortos também. – Disse Vinicius.

– História triste. Felizmente creio que as autoridades locais podem lidar com o resgate do resto dos corpos. – Artur se levantou – Acho que vocês nos confundiram, não trabalhamos com resgates aqui. Isso é com os bombeiros.

Vinicius o ignorou e continuou:

– Cerca de dois dias atrás foi recebida uma ligação de um telefone via satélite. Era um dos sobreviventes. Pedia socorro e dizia que todos estavam em uma aldeia ribeirinha e que o ocorrido não foi acidente e sim trabalho dos homens de fazendeiros da região.

– É, agora a história de vocês complicou mesmo. Acho que deveriam ir à delegacia e informar o ocorrido. Infelizmente, como eu disse, não podemos ajudar. Resgate de qualquer tipo não é nosso negócio. Enfrentar jagunços menos ainda. – Artur se movimentou para a porta. – Agora se não se importam vou ter de sair para…

– Artur Falcão – Interrompeu Julius. – Mergulhador de Combate, nome de guerra FALCON certo? Você estava no grupamento que retomou a plataforma de Petróleo há alguns anos atrás e também serviu em várias missões pelo mundo, desde forças de paz, até trabalhos na fronteira.

O homem de barba olhou de forma firme para Julius. Sua fisionomia deixou de ser  acolhedora. Era séria, como se reprimisse alguma coisa. Mas então, após alguns segundos o olhar perdeu a seriedade e ele começou a falar paulatinamente:

– Senhores, minha vida nas forças armadas se foi. O que se passou lá, não é da sua conta. Não sei a que órgão pertencem, e nem estou interessado. Quero apenas ter uma vida normal aqui. O que aconteceu aos seus fiscais é um caso de policia. Infelizmente não posso e nem tenho interesse me meter.

– Será mesmo senhor Falcon? Posso chama-lo assim? – Vinicius interveio. – Nós representamos a Fundação Internacional de Segurança, FIS. Somos uma ONG ligada a ONU. Como pode ver temos nossos contatos. Nos dê mais 5 minutos, por favor.

Artur, pensou rapidamente e disse:

– Vocês têm 5 minutos. Tenho clientes a atender.

– Obrigado. – agradeceu Vinicius. – Deixe-me contar uma primeira história. Há algum tempo atrás, na cidade de Barroso um grupo de valentões, começou a atacar grupos específicos de indivíduos aqui da região.

Ao olhar de dúvidas de Artur, Julius completou:

– Gays, prostitutas, moradores de rua etc. – Em seguida Vinicius continuou.

– Eles andavam pelas ruas em seus carros novos e diziam limpar a cidade. As autoridades faziam vista grossa para o caso, pois os garotos eram filhos de gente poderosa. Além disso, quem ligava para essas pessoas? – Novamente Julius interveio:

– Acontece que um dia o grupo foi encontrado na sede do jornal local. Várias contusões, ossos quebrados. Disseram terem sido agredidos por um grupo armado.

Após uma breve tosse, Vinicius continuou.

– No entanto testemunhas contaram que eles foram agredir um bêbado. Mais uma vítima qualquer. Só que a caça virou caçador. Disseram que foi tudo muito rápido, o primeiro atacou com um taco de baseball e o suposto bêbado se esquivou, e no momento seguinte ouviu-se um “crack” no braço do agressor, seguido por um grito. O segundo nem teve tempo de reagir pois foi atacado por um chute que o lançou contra um outro companheiro.

– Não sei o quanto desse relato é fantasioso, mas a verdade é que 5 indivíduos fortes, praticantes de artes marciais foram parar no hospital e nunca mais voltaram a região. Nenhum grupo armado foi encontrado. – Julius concluiu.

Vinicius olhou o rosto do homem de barba, ele observava mensagens no celular. Mas continuou mesmo assim.

– Tempos depois um pequeno grupo de contrabandistas estava montando uma base em outra cidade aqui próxima. Acho que o nome era Valedina. A operação era pequena, porém com o seu crescimento alguns moradores foram expulsos de suas casas. Era um lugar afastado, sem holofotes. Fácil saber que ninguém se importava com isso também.

Outra tosse e o homem de barba deixou sua cadeira e serviu um gole de água a Vinicius. Julius então tomou a palavra:

– Acontece que alguém decidiu agir. Os moradores contam que uma noite foram acordados com o barulho de tiros e uma explosão. A base dos contrabandistas tinha sido atacada e destruída. O chefe do bando foi entregue na sede Policia Federal em Belém com dezenas de documentos.

– Durante seu depoimento – Vinicius retomou a narrativa – Ele disse que não foi uma quadrilha rival ou desavenças no grupo. Tinha sido um homem só. Um fantasma que entrou, acabou com seus homens e o capturou. Ele não sabia como havia chegado à Belém, pois foi sedado.

Vinicius tomou um gole de água e continuou.

– Existe uma terceira história. Essa saiu no jornal recentemente. O prostíbulo estourado no município de Jacinta. Era dirigido pelo prefeito com a conivência da policia local. Muitas das moças que ali viviam eram “vendidas” por suas famílias. Várias eram menores de idade.

– Eu li a respeito. A delegacia de proteção a criança estourou o lugar. – Artur, finalmente interagiu.

Vinicius e Julius trocaram olhares debochados e Julius continuou:

– Sabemos que não foi bem assim, certo Falcon?

– O que sabe a mais? Esta dizendo que os jornais mentiram? – Perguntou Artur e Julius respondeu:

– Não foi o conselho tutelar, não foi a policia. Eles receberam a encomenda. Alguém informou que um prostíbulo havia sido estourado. Documentos que incriminavam os figurões da cidade foram enviados para esses órgãos e para vários jornais aqui do Pará.

– Tivemos acesso aos depoimentos. – Vinicius continuou – Algumas meninas citam um homem que foi ao prostíbulo várias vezes. Algumas apenas para beber e em outras subia com uma delas. Pagava mas não ”usava”, se é que me entende. Pedia informações da rotina delas, como eram vigiadas, quem eram os mandachuvas locais. Depois de uma hora pagava um extras a elas e ia embora. Algumas narraram que o olhar dele quando contavam sobre sua rotina, de como foram tiradas de suas casas, era um misto de raiva e revolta. Mas ele nunca falava. Era muito discreto.

Julius observou o estranho que acabara de conhecer. Ele olhava fixamente para eles. Olhos tal qual o de um predador. Olhos de águia. “Ele esconde algo” pensou ao desviar o olhar. Em seguida voltou a prestar atenção às palavras de Vinicius:

– Então em uma noite especial, quando estavam presentes alguns deputados e figuras ilustres da região, alguém atacou. Primeiro o gerador apresentou avaria e tudo ficou escuro. Então alguém entrou lá, atacou os seguranças e guiou as meninas para fora. Pelo menos as que queriam deixar aquele inferno. Levou-as até uma van que surgiu do nada. Pela voz, reconheceram que era o visitante misterioso.

Vinicius bebeu outro gole de água e continuou:

– Obviamente houve resistência, mas os seguranças não estavam preparados. Um a um foram sendo derrubados. Súbito, os carros, muitos de luxo, começaram a explodir. Um verdadeiro inferno. No fim tudo entrou em chamas. Mas documentos e fotos comprometedoras foram retirados antes. O dia seguinte é o que esta nos jornais. As meninas foram deixadas no conselho tutelar, ao mesmo tempo que uma ONG voltada para o combate ao trafico de pessoas e prostituição infantil foi informada e apareceu no local.

– Foi um ataque cirúrgico e bem planejado. Destruiu o local, entregou prova dos culpados e resgatou as meninas. – concluiu Julius.

– Esses são apenas três casos. Existem outros nesse Pen Drive. Fizemos um apanhado de ocorrências semelhantes. Aqui, esta cidade, é o baricentro entre elas. – Vinicius deixou o objeto na mesa de Artur. – Os dados sobre o possível resgate dos fiscais estão ai também.

Vinicius então se debruçou sobre a mesa e olhando fixamente para o homem de barba disse:

– Essas pessoas precisam de ajuda. Como você, eles estão tentando ajudar quem precisa, mas não tem como combatê-los sozinhos. Ajude-nos senhor Falcon.

O homem de barba respirou profundamente. Após 10 segundos de interminável silêncio ele respondeu:

– Primeiramente, meu nome é Artur Falcão. Não pertenço mais a Marinha ou qualquer entidade governamental. Ganho a vida com esta loja, levando turistas para passeios pelas matas. Turismo de Aventura. Não é uma vida fácil, mas eu gosto e não tenho interesse de mudar de trabalho. Não sei que tipo de fantasia passa pela sua cabeça em achar que sou algum tipo de vigilante ou justiceiro. Compadeço-me dessas pessoas mas não sou o mais indicado para ajuda-las.

Artur então se levantou e caminhou até a porta.

– Se é tudo que tem a dizer, e não tem interesse em um passeio de aventura tipo o que oferecemos, peço que saiam.

Vinicius e Julius se olharam. Sem palavras se levantaram e saíram cabisbaixos, deixando o homem de barba sozinho. Caminharam em silencio e sem trocarem olhares, até chegarem ao local onde estava estacionado seu carro.

Julius tomou o lugar do motorista. Vinicius  quebrou o silêncio:

– O que faremos? Não parece ser ele. Apesar de nossas investigações apontarem para essa cidade e esse homem. E os fiscais e nosso agente? Devem estar sendo perseguidos e logo poderão ser capturados e mortos.

– É ele Vinicius. Sem dúvidas, e vai ajudar. É da natureza dele, não tem como evitar.

– Como? Você é louco homem? Ele nos escorraçou de lá.

– Ele nos expulsou quando conseguiu o que queria. – Julius ligou o carro e partiu. – Vamos ficar atentos ao rádio.

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O telefone da loja tocou. O homem de barba já sabia que era seu sócio Pedro.

– Artur?

– Sim, como foi o passeio? Os clientes eram chatos?

– Não tudo tranquilo. O de sempre, fotos pra cá, dúvidas para lá. Fugir de uma cobra acolá. Não pode levar que pertence a floresta, esse tipo de coisa. E por ai, alguma coisa nova?

– Nenhum cliente. Muito fraco o movimento.

– Ok. Vou fechar aqui então.

– Espere. Estou indo para ai. – Artur pegou o Pen Drive deixado em sua mesa. – Sabe aquela transmissão que captamos? Descobri o que é. Prepare o equipamento e o helicóptero, acho que vou precisar dar uma volta…

Esta história é um homenagem aos trabalhos de Walter Negrão, Michio Yamashita, Teresa Saidenberg e Antonino Homobono.

 

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