RVK004 – Pokémon Go e a cultura pop

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De acordo com uma parcela rabugenta dos ditos “adultos”, a cultura está nos infantilizando. Afinal, suas formas mais dominantes e rentáveis são os videogames, ditos como de criança, e filmes de herói, também ditos como de criança.

Pokemon Go é para crianças

Todas essas culturas tem um padrão: Eles esperam algum tipo de engajamento e construção acrítica dos personagens. Afinal, pouco se fala de que boa parte dos heróis são justiceiros sanguinários que fazem justiça com as próprias mãos. E esses mesmos justiceiros geram fortunas com merchandisings diversos, criando numa parcela do público uma euforia típica de uma criança entusiasmada.

Ainda existe um movimento oposto a formação do pensamento crítico da cultura POP. Veja a fúria dos fãs quando alguém tenta abordar a cultura de massa com qualquer tipo de olhar mais crítico. “Por que está levando isso tão a sério?”, “Pra que tanta pretensão?”, “É só um filme/jogo, não quer dizer nada…” Mas ao mesmo tempo algo que diz: “Pô, qual é? Você está cortando meu barato.”

Pokemon Go é só mais uma peça desse jogo da cultura POP em que gera engajamento e zero crítica construtiva. Chegamos então ao primeiro mito: Esse jogo é para crianças e que é um jogo idiota? Se sim, toda cultura POP é também.

Um mundo fantasioso não existe

Me responda o seguinte: o que as crianças realmente fazem? Em suas brincadeiras, aos montes e sem a mediação de nada além de suas imaginações, elas fazem algo espontâneo e incrível: elas criam novos mundos. Quem enquanto criança nunca brincou de não pisar nas rachaduras de uma calçada, ou ter que andar na parte preta do calçadão de Copacabana, e caso errando, cairíamos em abismos intermináveis? Essa brincadeira nada mais é do que a expansão da realidade, não muito diferente da ideia de que possam existir bichinhos bonitinhos e incríveis perambulando pelas ruas.

Tudo na vida é repleto de significado em potencial e está aí para ser adaptado e quebrado. Tudo pode servir para uma outra realidade em que não alcançamos na vida real. Tão quanto uma criança/adolescente pode se encantar com a ideia de existir um mundo paralelo onde há magia e estamos longe da família opressora, ou que um exista um mundo invertido como em Stranger Things, ou aliens escondidos que conspiram contra a humanidade como Arquivo X.

Então confronto o segundo mito: É idiota ficar imaginando que existam coisas fantasiosas andando por aí? Se sim, mais uma vez, toda cultura POP é bem idiota.

Não percebemos o mundo a nossa volta

Como morador de Niterói-rj andar de barcas é um fato usual. Entretanto toda vez que faço esse percurso fico encantado com a paisagem em volta. De um lado o Pão de açúcar, a fortaleza Santa Cruz, o Cristo Redentor e todas as montanhas que formam a cidade do Rio de Janeiro. Do outro lado, a gigantesca ponte Rio-Niteroi, os barcos gigantescos e a mais gigantesca ainda Serra do Mar ao fundo. Mas dentro das barcas, centenas de pessoas sem olhar pelas janelas, sem nem olhar umas para as outras. Todos presos em suas redes sociais, em suas músicas e, quem sabe um dia, presos ouvindo o OuViKings.

Pokemon Go pega esse mundo que já ignoramos e o transforma. A paisagem de seu bairro que você vê durante o jogo é um mapa de GPS – uma tecnologia originalmente criada para orientar mísseis guiados. É o mapa do Google. Seu cinza fúnebre foi substituído por um verde vivo que é tão achatador e totalizante quanto o original, independente do conjunto de nuvenzinhas que preenche a parte superior da tela. O jogo lança seu olhar sobre o mundo da perspectiva de um satélite militar localizado acima da atmosfera terrestre, totalmente indiferente à experiência sensível e alheio à vida humana.

Chegamos ao terceiro e último mito sobre o jogo: Ele aliena as pessoas do mundo físico real? Se sim, não mais do que todas as tecnologias presentes em nossos celulares. Pelo contrário, o Pokemon Go pode servir até mesmo como um reencontro com as ruas, já que temos que ir fisicamente aos lugares para realizarmos nossas batalhas e pegar mais pokebolas nos “pokeshops”, lugares esses que ficam em lugares relevantes das cidades. Perto da minha casa, as “pokeshops” ficam no teatro municipal, numa praça abandonada de um público já que a prefeitura colocou grades em volta dela (nunca entenderei isso), num campus de uma universidade. Ou seja, o jogo pode até apresentar lugares novos aos usuários.

Cultura POP

Por fim, o que deve ser questionada é a cultura POP e não um novo jogo/aplicativo que são somente uma gota dentro do oceano POP que nos cercam. Devemos criticar mais a banalidade do POP, criticar a cegueira que ele nos gera e adquirir o que ele tem de melhor. E aos que acham “ah!! Pokemon Go é uma babaquice” deveria repensar suas idas no cinema para ver Vingadores 2 ou na hora de dar play no álbum do Justin Bieber.

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